Arnaldo Jabor

Arnaldo Jabor nasceu no Rio de Janeiro no dia 12 de dezembro de 1940, filho de um oficial da Aeronáutica e uma dona de casa, já foi técnico de som, crítico de teatro, roteirista e diretor de curtas e longas metragens. Formado no ambiente do Cinema Novo, participou da segunda fase do movimento, que buscava analisar a realidade nacional, inspirando-se no neorrealismo italiano e na nouvelle vague francesa. Seu primeiro longa-metragem foi o inovador documentário Opinião Pública do ano 1967, uma espécie de mosaico sobre como o brasileiro olha sua própria realidade.

Capaz de escrever com fluência em estilos variados, extremamente habilidoso ao aliar citações eruditas a uma visão crítica da realidade brasileira. É conhecido por abordar os mais variados temas. Suas intervenções “apimentadas” na televisão e em suas colunas lhe renderam admiradores e muitos críticos e o consagraram como um dos melhores palestrantes da atualidade.

Arnaldo Jabor

Adeus – “Resolvi parar porque vou fazer mais um filme (meus inimigos dirão: mais um?)”

Nada vem do nada – “José 318 falou: ’Um dia, só haverá informações sem homens’. Era 1957 e não se sonhava com internet”

Direita, esquerda e realidade – “O esquerdista de carteirinha se sente justo e abençoado por um ideal e absolvido por seus erros.”

A barbárie dos fatos – “O mundo está tão louco que as pessoas querem ficar no passado de um futuro que não conhecem.”

Amor ao fracasso – “Assim como o ‘atraso’ sempre foi uma escolha consciente, o ‘abismo’ é um desejo secreto.”

Os burros n’água – “Estamos começando do quase zero, fazemos só o conserto, a recauchutagem do óbvio.”

Meu último desejo – “Graças a Deus, usei esse tempo para ajudar a acabar com o pesadelo americano.”

Seja marginal, seja herói – “É isso aí, estamos aprendendo com o mundo de hoje.”

Os Brasis – “Graças a Deus, eu sou da classe dominante. Eu sempre penso isso e agora, aqui no ano da graça de 2039, tenho um vago sentimento de delícia, de cruel alívio, vendo da janela do meu trigésimo andar o ‘povo’ (que hoje chamamos de ‘patuleia’) se movendo nas ruas. Agora, só há duas classes: os felizes e os humilhados e ofendidos.”

Homem-bomba americano – “Quando o Trump foi eleito, fiquei doente. Juro. Só conseguia pensar nele. Como é que um sujeito tão repulsivo foi eleito presidente? A explicação talvez esteja na aparência horrenda de seus seguidores.”

A volta da caretice – “Fala-se muito em esquerda e direita, mas nos esquecemos da ‘caretice’. Para além das posições políticas, se instala agora num mundo uma espécie de paralisia mental, um medo do novo em meio a uma infinita tempestade de informações que a revolução digital despeja sobre nós. Essa convivência ambígua angustia as pessoas e a tendência no ar é de um conformismo defensivo, uma recusa a uma escolha ideológica: é a caretice, o amor ao fixo, ao já conhecido.”

O militante imaginário – “O que é o “militante imaginário”? O filósofo José Arthur Giannotti criou essa expressão e eu a achei perfeita. O “militante imaginário” é o sujeito que se acha revolucionário, mas nunca fez nada pelo povo. Chamemo-lo de MI. É-se militante imaginário como se é Flamengo ou Corinthians. Agora, nessa grande crise de mutação que vivemos, pululam militantes imaginários.”

Estamos sem ’porquês’ – “Li outro dia uma frase aterrorizante que nos explica – hoje. Quando o escritor Primo Levi foi preso em Auschwitz, ele perguntou algo a um oficial do campo. O sujeito respondeu: “Hier ist kein Warum” (aqui não há o porquê). Estamos sem porquês.”

Velhas perguntas e velhas respostas – “Não aguento mais falar de escândalos e punições. A política está tão despedaçada quanto nossas cabeças. A mutação dos últimos anos foi tão forte, a revolução digital foi tão completa no mundo pós-industrial, que dissolveu crenças e certezas. Caímos num vácuo de rotas. Não há uma clareza sobre a pós-modernidade – como viver sem esperanças?”

Nosso atraso ficou atrasado – “Acho muito boas as decepções recentes. Elas nos fazem avançar, mesmo de lado, como siris do mangue. O Brasil evolui pelo que perde e não pelo que ganha. Sempre houve no País uma desmontagem contínua de ilusões históricas. Esse é nosso torto processo: com as ilusões perdidas, com a história em marcha à ré, estranhamente, andamos para a frente. O Brasil se descobre por subtração, não por soma. Chegaremos a uma vida social mais civilizada quando as ilusões chegarem ao ponto zero. Erramos muito, quando vivíamos cheios de fé e esperança – dois sentimentos paralisantes.”

Não há fichas limpas – “Não, não sei mais analisar a situação brasileira. Os fatos estão muito à frente de qualquer interpretação, que é sempre fugaz, com uma lógica que se perde em poucos instantes. A sensação que tenho – estamos reduzidos a sensações – é que os hábitos tradicionais do velho patrimonialismo brasileiro, com suas teias ocultas de escândalos, estão arrebentando juntos e irrompendo da lama escondida por séculos.”

As ilusões perdidas – “Fui do PCB, participei da fundação da Ação Popular, fui diretor da revista da UNE, um dos fundadores do CPC (Centro Popular de Cultura) e digo: Não existe ninguém mais platônico, sonhador, nefelibata do que um materialista dialético. Conheci vários que estavam aí no poder, ainda bonitinhos e fogosos. Foram (fui também) formados por uma empada de retalhos ideológicos mal lidos na Guerra Fria. Tínhamos só fins e nenhum meio.”

Nossa terra em transe – “Minha avó sempre dizia: “Toda desgraça tem seu lado bom”. Ou então, “Deus escreve certo por linhas tortas”. Será que Deus, brasileiro, está nos levando a um Bem, através dessa chuva ácida que nos arrasa?”

Entrevista comigo mesmo – “Oi, Arnaldo, tudo bem? Tudo bem, Arnaldo… Por que esta entrevista consigo mesmo? É que eu não estou entendendo mais nada do país nem de mim mesmo. É a crise na alma. Preciso saber quem eu sou. Ando numa recessão mental.”

O Natal desesperado – “O Natal perdeu a delicadeza antiga. Não temos mais chaminés nem ceias transcendentais. Hoje, Papai Noel vem com as renas de um Polo Norte que está derretendo pelo efeito estufa. Hoje, no presépio de Belém, perto da manjedoura do Menino Jesus, explodem homens-bomba berrando: “Feliz Natal, cães infiéis”. Estranho destino da humanidade: a morte no mesmo lugar no nascimento, o fim da civilização na mesma região onde começou.”

A melancolia e o luto – “A melancolia se instala quando há uma grande perda, seja de uma pessoa, de bens e até de um país. É diferente do luto, diz Freud, que provoca um grande desinteresse pela realidade, a não ser sobre o objeto perdido. Já na melancolia, com a perda, o mal do mundo cai sobre a própria pessoa, ou seja, quem não vale nada é o “eu”.

Nossa pequena história – “O Brasil se move por acaso. As causas profundas, seculares, aparecem sob a forma de pequenos indícios, fatos e traumas inesperados que disparam uma mutação histórica. O que quer dizer essa frase? Que não são apenas as “relações de produção” que explicam nossa marcha; um país pega os cacoetes de seus políticos, que, por sua vez, repetem os cacoetes tradicionais do país, e isso vai numa corrente contínua que faz a história andar tortamente, povoada de acidentes de percurso, de neuroses, muito além de meros “blocos históricos” ou “luta de classes”.

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